quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Harmonização: Wild Ale com queijo tipo Camembert

 


Harmonização de queijo com cerveja: Morro Azul da Vermont Queijos/Pomerode Alimentos com a Botanique da Hopmundi.

Queijo é o acompanhante natural da cerveja. Isso mesmo, não é o vinho. A cerveja é uma amante muito mais digna 😁

Ambos são alimentos que sofrem a ação dos fungos: a cerveja por meio da levedura, os queijos maturados, dos bolores. Assim, possuem sabores semelhantes que criam pontes em uma harmonização 🧀

No caso acima, o queijo Morro Azul é envolto por uma cinta de carvalho e coberto pelo bolor branco penicilinum, tal qual um brie ou camembert. Todavia, mais saboroso e complexo que estes últimos, pois forma um creme no interior que absorve características da cinta e do mofo (essa é a leitura que eu fiz). A cerveja, por sua vez, é uma wild ale feita à moda belga: uma blond originalmente fermentada por Saccharomyces e depois maturada por 8 meses em barrica com microbiota local. Assim, a breja também absorveu muito das características da madeira e dos organismos.

Conhecendo os dois componentes, podemos ter parâmetros para uma possível harmonização. Os elos principais são por semelhança: tanto queijo como a cerveja possuem aquele sabor rústico deixado pelos microrganismos. O queijo também possui muito gosto umami, aquela sensação saborosa que encontramos em alguns alimentos. Por incrível que pareça, cervejas muito "selvagens" também podem gerar a mesma sensação, logo esta é mais uma afinidade. Por fim, a acidez láctea da breja assemelha-se com a cremosidade do queijo e ainda limpa um pouco o amargor característico de queijos tipo camembert. No final, parece que ambos os elementos formam um só e você não sabe onde começa um e termina o outro!

Uma harmonização incrível. Santé! 🍻




quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Harmonização: Barleywine com Rochefort

 



Barley Wine é um estilo oriundo da escola inglesa criado especialmente para rivalizar com os vinhos. À época, imaginou-se uma bebida pujante, quase indelicada, para atingir níveis de força e complexidade comparados aos desses últimos. De fato, uma boa British Barley Wine é uma cerveja notável. Forte, complexa, mas bem equilibrada 🍺

Felizmente, temos bons exemplares do estilo no Brasil! O da nossa conterrânea, Falke Beer, é um deles. Um cerveja vigorosa ao estilo inglês. Traz muitos aromas de malte, como toffee, chocolate e café. A levedura, que trabalha incansavelmente no poderoso mosto da breja, contribui com uma camada de frutas secas. No palato, é equilibrada, sem que um elemento se sobreponha aos outros, porém com bastante corpo e aquecimento alcóolico. Nada muito intenso como as criações da nova escola, mas de um refinamento de dar água na boca! 🍻

Para harmonizar, trouxemos um queijo azul: Rochefort. Espetacular combinação. Os sabores rústicos do queijo oferecem uma dança voluptuosa com a complexidade da breja! Muita intensidade de ambos os lados. Uma harmonização clássica e quase aristocrática 🧀

Easy Company



Há 75 anos, encerrava-se o conflito mais mortal da humanidade. Dentre tantos episódios de barbárie e sofrimento, a Segunda Guerra Mundial também contou com memoráveis gestos de heroísmo que ficaram para sempre gravados na história. O throwback de hoje mostra um pouco disso por meio da cerveja.

Em 1944, a balança da guerra pendia para o lado dos Aliados. No fronte oriental da Europa, a Alemanha Nazista já estava em debandada pelas sucessivas derrotas para a União Soviética. No fronte ocidental, preparava-se a icônica Operação Overlord, a qual abriria uma nova frente com o desembarque na França.

Neste cenário, encontrava-se a Easy Company, um regimento do exército americano treinado para realizar incursões pelo ar, sendo um dos destacamentos mais atuantes durante a guerra. Saltou de paraquedas na Normandia durante o famoso Dia D e teve decisiva participação no desembarque das forças aliadas, tomando pontos estratégicos das defesas alemãs. Também lutou na retomada da França em batalhas importantes, como a do Bulge, nas Ardenas. Mesmo durante o inverno de 1944-1945, impôs uma resistência heroica na cidade de Bastogne, freando o avanço das tropas germânicas na sua última ofensiva da guerra. Também foi uma força libertadora da Alemanha, uma das primeiras a ter contato com os hediondos campos de concentração nazistas.

A fama da Easy Company foi retratada com maestria na série da HBO intitulada "Band of Brothers". Ganhadora do Globo de Ouro em 2001, a série foi aclamada pela crítica e mostrou não só os horrores da guerra, mas todo o pano de fundo que permeava a atuação dos soldados e oficiais: seres humanos como quaisquer outros, suscetíveis às mais diversas provações e aos conflitos internos que estas geraram. 

A Salvador Brewing homenageou a companhia com esta cerveja, uma American Wheat Beer bem leve e lupulada. Ótima para se tomar em dias quentes, refresca o ânimo dos soldados. Harmoniza muito bem com maratonas de séries, como a Band of Brothers! Como fã da mesma, me deu vontade de assistir de novo tomando a breja...


Cheers!

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Harmonização: Saison, vinagrete de maçã e bisteca de porco

St-Feuillien harmonizada


 

Hoje vamos falar de uma bela cerveja e de uma bela harmonização: St-Feuillien Saison, uma autêntica cerveja de fazenda belga, harmonizada com bisteca de porco e vinagrete de maçã.

Olha, sejamos sinceros: essa breja é um mundo à parte! A St-Feuillien Saison traz tudo aquilo que se espera de uma ale belga tradicional: muitos aromas derivados da fermentação e grande complexidade. Maçã, pêra, damasco... a impressão inicial é a de que estamos diante de uma salada de frutas! Aliado a tais aromas, algum resquício de lúpulo que se assemelha a laranja (lembrando que essa breja sofre dry-hopping!) e um caráter "mofado", provavelmente oriundo da amplitude microbiológica das cervejas belgas. Na boca, a breja é levemente amarga, mas apresenta nuances de malte (um certo dulçor que lembra mel) com um corpo médio e final seco. A carbonatação explosiva fecha o conjunto e limpa o palato a cada gole!

Garrett Oliver, em seu clássico livro "A Mesa do Mestre-Cervejeiro", já indicava um estilo que, para ele, seria o coringa das harmonizações: justamente Saison. De fato, levando em conta as características de uma autêntica cerveja do estilo, como a St-Feuillien, é possível chegar à mesma conclusão! Que breja versátil! Possui vários atributos que caem bem em várias harmonizações, como a elevada carbonatação que corta a gordura e traz mais leveza aos pratos; ou a complexidade de aromas que funcionam quase como um tempero da comida.

No caso, elegemos um prato simples para acompanhá-la: uma bisteca de porco regada a vinagrete de maçã e temperada com alecrim. O vinagrete harmoniza por semelhança com a St-Feuillien. De fato, fica até difícil distinguir cerveja do vinagrete quando os dois se unem! Com a bisteca, a gordura do porco é contrabalanceada pela carbonatação da cerveja. Juntos, todos os elementos parecem formar um prato só, suculento e bem condimentado! Uma ode aos sentidos.

Por fim, ainda comparamos a St-Feuillien com a Farmhouse Ale da Wäls, a 42. Esta última é muito bem feita, mas é patente a diferença de qualidade entre elas. Enquanto toda a complexidade da St-Feuillien provém da fermentação, a 42 somente se baseia em adjuntos, deixando-a levemente artificial.

Santé 🍻

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Inovações no mercado cervejeiro

 

Hocus Pocus Day Tripper
Hocus Pocus Day Tripper, intrigante NE IPA que usa lúpulos experimentais


Relembro hoje uma bela cerveja que tomei há um tempo atrás, a Hocus Pocus Day Tripper, para falarmos um pouco sobre inovações do mercado cervejeiro. 

A breja em si é uma New England IPA que utiliza o lúpulo experimental HBC 472. Muito intrigante, a variedade traz aromas de coco à cerveja 

Ela me fez refletir sobre como a pesquisa que trata dos insumos da cerveja tem evoluído freneticamente nos últimos tempos. Os lúpulos já tradicionais sofrem cruzamentos e geram variedades novas. Diferenças de cultivo originam características totalmente diferentes das usuais. E as experimentações não se limitam ao lúpulo: outro campo de fantástico avanço é o das leveduras, área na qual o Brasil tem grande potencial de exploração, haja vista que várias cepas sequer são utilizadas comercialmente. A ZalaZ é um grande exemplo do que estamos falando, com seu "terroir" já famoso. 

Infelizmente, temos que admitir duas coisas: 1) grande parte da inovação vem de fora; e 2) o mercado brasileiro ainda é muito pouco desenvolvido. As causas são inúmeras, a começar pelo ambiente de negócios ruim. Não há incentivos ao crescimento do setor artesanal independente, tendo em vista a dificuldade de se manter um business no Brasil e os altos tributos incidentes sobre os produtos. Os empreendedores que buscam se aventurar na área têm, ao menos, um grande incentivo: 95% do consumo ainda é de cerveja industrializada. Ou seja, o prognóstico de crescimento ainda é bom. Outros fatores que podem ser citados são a aquisição de microcervejarias pelos grandes players (considero algo positivo para a inovação e expansão do mercado) e o baixo potencial de crescimento da economia (o que estimula o consumo para baixo). 

De toda forma, a inovação é contínua e os cervejeiros não param de nos surpreender. Os maiores beneficiados pela evolução do mercado somos nós, consumidores! 🍻

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Degustação: Lambics

 

Lambics


No último final de semana, fizemos uma degustação horizontal de lambic/geuze: uma belga e duas nacionais. Fomos capazes de avaliar as diferenças entre o exemplar tradicional e os da nova escola e ainda harmonizamos as brejas com conserva de queijo de cabra! Um excelente exercício sensorial!

Lambics são cervejas tradicionais da Bélgica, cuja origem remonta à região do vale do Sena. Constituem um estilo milenar, muito próximo ao das primeiras cervejas já produzidas pela humanidade, uma vez que são fabricadas por meio de fermentação espontânea: a microbiota do ambiente da cervejaria contamina naturalmente o mosto cervejeiro! No entanto, tal fermentação é lenta e as lambics tradicionais demoram anos para serem maturadas. Geralmente, para refinar seu sabor, os cervejeiros belgas ainda fazem blends de lambics novas e envelhecidas, o que se chama geuze. O resultado é uma bebida marcante: muito complexa, seca, ácida, repleta de aromas rústicos. Por vezes, até se adicionam frutas, como framboesa e cereja, para tornar a bebida mais palatável ao grande público.

Desde já, um adendo: tradicionalmente, as lambics só podem designar as cervejas fabricadas na região de Bruxelas e do vale do Sena. Somente lá é que encontramos a microbiota necessária para se fazer tal estilo espontaneamente. Os cervejeiros do novo mundo, apesar de assim designarem seus produtos, trazem as cepas dos microrganismos belgas para cá, controlando a fermentação na cervejaria. As brejas resultantes seriam, portanto, melhor designadas como brett beer ou american wild ales.

Na nossa degustação de lambics, fizemos uma harmonização com conserva picante de queijo de cabra que leva limão, azeite, pimentas variadas e alecrim. Um espetáculo! Os sabores rústicos das lambics harmonizaram por semelhança com o queijo (elas também têm um certo caprílico!). A acidez refinada das brejas encontra respaldo no limão, mas também contrasta com a untuosidade da conserva e com a picância das pimentas. Ademais, o caráter condimentado da conserva é muito bem recebido pela cerveja, com sabores que se complementam. Enfim, uma harmonização completa!

Quanto às cervejas em si, algumas observações:

1 - a Celeiro do Vale, da Wals, é uma bela reprodução das geuze originais. Em termos de aroma, achamos bem complexa: muita rusticidade aliada a um cítrico intrigante. Bem leve e com acidez refinada;

Celeiro do Vale



2 - a Nêspera Lambic, da Imigração, é mais robusta, pois possui maior ABV e também mais corpo. A fruta traz uma bela adição de sabor e equilibra a acidez característica do estilo;

Nêspera Lambic



3 - a Mariage Parfait, da Boon, é de fato a geuze por excelência. Os exemplares nacionais fizeram um belo trabalho, mas não se comparam a uma belga original. Esta traz muita complexidade: além dos sabores rústicos, bem puxados para celeiro e couro de cela, também traz um aspecto frutado que lembra vinho branco. Em termos de corpo, álcool e acidez, foi a mais equilibrada de todas. Também é de se notar que ela é um blend de lambics de três anos com novas de apenas um ano, o que confere equilíbrio de sabores e texturas.

mariage parfait



Enfim, um baita exercício sensorial! Santé!

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Harmonização: strudel com belgian dark strong ale

Strudel com Oroboro Dark Strong Ale

Oroboro Aged da Cervejaria Verace. Uma belgian dark strong ale maturada por três anos na garrafa. Harmonizamos com strudel de maçã.

Uma excelente harmonização por semelhança. A cerveja traz sabores de frutas secas (ameixa, uva-passa, banana seca) oriundos da fermentação. Também apresenta boa complexidade de malte, relembrando caramelo queimado, além de corpo alto e potência alcoólica contida. Esses sabores se assemelham bastante ao do strudel, uma massa folhada que contém, além da maçã, castanha-de-caju e passas. Ademais, a doçura do strudel é contrastada pela sensação de álcool da breja. 

Uma baita harmonização! 🍻

sábado, 22 de agosto de 2020

ABV e aquecimento alcóolico

 




O frio glacial que está fazendo no Brasil pede uma breja acolhedora. Estilos com alto grau de aquecimento alcoólico caem muito bem, portanto. Na foto, a Black Mist Coffee, da Cervejaria Dádiva, que tomamos há um tempo atrás. Imperial Stout robusta, com muitos adjuntos, como café, baunilha, cacau e chips de carvalho. Não somos muito fãs de RIS com muitos adjuntos ou que sejam muito doces, mas essa estava bem boa 🍺

Interessante notar que o aquecimento alcoólico não está relacionado diretamente ao ABV. Cervejas com alto ABV podem esconder muito bem o álcool, em função principalmente de altas quantidades de açúcar residual ou adjuntos. Ou seja, cervejas muito atenuadas, em que o açúcar foi bastante consumido pela levedura, são as que mais liberam os compostos voláteis do álcool e, portanto, mais geram aquecimento 🥃

Elevado aquecimento alcoólico pode ser rebatido com sobremesas doces. Por outro lado, comidas muito picantes, temperadas ou salgadas podem ter suas características ampliadas pelos compostos voláteis! Muito cuidado nessa hora 😅

terça-feira, 7 de julho de 2020

Harmonização: rauchbier e costelinha

Rauchbier Schlenkerla



Rauchbier (Marzen) da Schlenkerla. Um clássico direto de Bamberg, na Alemanha, onde a tradição dos antigos processos de secagem do malte ainda sobrevive. A secagem com forno à lenha confere à bebida um caráter defumado. Emergem sabores de bacon, fumaça e torra, os quais se misturam à base da cerveja (no caso, uma Marzen). Linda breja, bem complexa e harmônica. 

Acompanha bem carnes grelhadas: tomamos com costelinha ao molho barbecue. Os sabores de ambos harmonizam por semelhança, em especial o barbecue. A breja ainda tem força e amargor suficientes para contrastar com a gordura da carne. Absolutamente incrível! Saúde 🍻


Rauchbier Schlenkerla ribs

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Harmonização: cerveja e chocolate



A harmonização entre comida e cerveja pode ser muito diversificada, como dissemos neste post. A cerveja é um alimento gastronômico! E, com sobremesas, isso se torna ainda mais evidente. Sobremesas de chocolate, então, podem ficar perfeitas com uma breja.

Mas o que deve ser observado? Como em qualquer harmonização, há de se ter em mente os princípios. Buscar um equilíbrio de forças e descobrir o que cada elemento pode trazer em termos de sabor. A partir daí, podemos pensar nas possíveis interações: semelhança, contraste, complementação. 

No que concerne ao chocolate, temos que observar o quanto possui em termos de cacau, seja puro ou na forma de licor ou manteiga. Quanto maior o teor de cacau, mais amargo será o chocolate. Também precisamos saber se há adições na receita e, em sobremesas mais elaboradas, o que elas trazem. A cerveja, por sua vez, possui muitas características desejáveis para essa dança: o malte escuro e dulçor residual são as mais óbvias, uma vez que harmonizam por semelhança com o chocolate. Mas, também, podemos citar a potência alcoólica de algumas brejas e a carbonatação, contrastes importantes para sobremesas doces e gordurosas. Se quisermos algo mais refinado, a acidez pode ajudar. Subprodutos da fermentação, adições de frutas, envelhecimento em barril... todos são boas complementações.

Percebe-se, então, que as interações podem ser infinitas, indo muito além da harmonização mais óbvia: cerveja escura. De fato, maltes mais escuros trazem sabores que harmonizam por semelhança com o chocolate. Como exemplo, uma bock, cerveja bastante maltada, combina perfeitamente com mousse ou ganache de chocolate. Se quiser adicionar outros ingredientes, fique à vontade! Cerejas, mirtilos, frutas secas também combinam com os ésteres da breja.

Bock com ganache de chocolate, frutas e castanhas

Chocolates muito amargos pedem cervejas igualmente intensas. No caso, uma boa pedida seria uma imperial porter. O dulçor da breja contrasta com o amargor e equilibra a combinação. O álcool também ajuda. Ainda, pode trazer sabores que harmonizam por semelhança: caramelo, toffee, café, cacau, etc.

Imperial porter com nibs de cacau e mirtilo harmonizou bem com chocolate amargo!


Harmonizações mais avançadas podem trazer elementos incríveis. Cervejas belgas que carregam vários subprodutos da fermentação são parceiras ideais para o chocolate. Os estéres e fenóis, tão variados na escola belga, fundem-se ao chocolate de forma que é criada uma verdadeira sobremesa no momento da harmonização! Abaixo, um exemplo: uma brett beer da Cervejaria Imigração, envelhecida em barris de whisky, harmonizou perfeitamente com trufas de chocolate, cereja e licor! A cerveja, com bastante potência alcoólica combinada aos sabores rústicos, se provou uma bela companhia. Igualmente, o amadeirado do barril pode ser uma boa pedida.


Por fim, uma kriek pode ser a melhor harmonização com chocolate! A acidez refinada contém o dulçor de um bolo de chocolate branco, por exemplo. A cereja contida na breja, então, funciona quase como uma calda! 

kriek boon

Enfim, são muitas as possibilidades! A cerveja está, de fato, ganhando seu lugar de volta na mesa! Cheers!

terça-feira, 12 de maio de 2020

Temperatura de conservação da cerveja

O fator ambiental é importantíssimo para a conservação da sua cerveja. E a temperatura talvez seja o elemento mais importante. 🌞

Quanto mais alta a temperatura de guarda, mais rapidamente ocorrem as reações químicas na bebida - principalmente no que diz respeito à oxidação. 🍺




No gráfico acima, pode-se perceber que uma cerveja mantida a 30° torna-se extremamente oxidada após 10 semanas, ocorrendo aquele famoso sabor de papelão. Se armazenada a 20°, o efeito é bem mais lento, no entanto ainda bem presente. 😕

O ideal, no Brasil, é manter as cervejas à temperatura de geladeira, conservando assim as características originais da bebida e prevenindo-a da oxidação. Infelizmente, muitos pontos de venda não fazem isso, de modo que a breja já chega para o consumidor bastante prejudicada. Em casa, também prefira o armazenamento a frio. ❄️ 



Na imagem acima, a excelente imperial stout da Cervejaria Providência, cerveja sazonal que recebe café e chips de carvalho em sua maturação, sendo condicionada em garrafa. 🍺

Deixei ela envelhecer por mais de 1 ano em temperatura ambiente! Um erro para as condições do Brasil. Felizmente, a oxidação foi amena e positiva. Imagino que a refermentação foi acelerada pela temperatura e conservou a breja do oxigênio, mas não é sempre que isso ocorre! De todo modo, ela ficou fantástica! Muitos ésteres que lembravam frutas secas. Café e madeira também bem presentes. Corpo aveludado, mas final seco. Excelente! 🍻

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Degustação: Lager



No final de semana, fizemos uma comparação entre estilos lager bem semelhantes entre si: Czech Pilsner, Munich Helles e German Pils. Colocamos, ainda, uma lager industrial para efeito de comparação. Era um tipo de prova que queríamos fazer há muito tempo!



1 - Pilsner Urquell: pilsner checa original. Amargor evidente (bem superior às outras). Muito aroma de lúpulo de caráter floral e condimentado. Malte apenas em segundo plano. Algum diacetil e sulfuroso (o que é normal). Seca, corpo leve. Espuma de grande qualidade.



2 - Paulaner Munich Helles: perfil mais maltado. Aromas de panificação, que variavam de um miolo de pão a casca de pão tostado. Dulçor mais evidente que nas outras. Mais encorpada também.



3 - Memminger German Pils: equilíbrio entre malte e lúpulo. Aromas de biscoito, ervas amadeiradas e flores do campo (típico dos lúpulos alemães). Levemente amarga, corpo médio-baixo. Bem refinada e equilibrada. Não parecia ser filtrada, pois não era translúcida como as demais, além de conter certo teor de malte tostado (cor âmbar, aroma).



4 - Beck's German Lager: nova lager de massa que está chegando no mercado brasileiro via Ambev. Qualidade bem inferior às outras. Muito diacetil (aquele cereal rançoso). Espuma inexistente. Doce e enjoativa. Também notamos um certo metálico. Curioso como varia de um lote para o outro, mas não surpreende por ter a mesma qualidade sofrível das demais lagers industriais.



Enfim, uma excelente degustação (horizontal) para perceber os diversos nuances das lagers claras vindas da Europa Central. Tínhamos feito tal degustação no curso, mas a sutileza das diferenças entre elas nos forçou a provar de novo! Ademais, somos fãs dos estilos clássicos! A pureza e a perfeição de processo dessas cervejas nos impressiona (a exceção dessa última 😅). Cheers 🍻

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Ancient Herbed-Spiced Beer




Kaimishkas, da antiga Cervejaria Brücke. Provavelmente, uma das brejas mais impressionantes que já tomei em território nacional. Uma pena que a Brücke tenha acabado, pois tinha ótimas cervejas 😢

Kaimishkas é uma Ancient Herbed Beer. Um estilo histórico caracterizado pela ausência de lúpulos 😬

Um pouco de história: antes da Idade Moderna, a maioria das cervejas não continha lúpulo. Para mitigar o dulçor do mosto, utilizava-se um combinado de ervas e especiarias, o chamado Gruit 🌿

Atualmente, como a criatividade do mercado cervejeiro não tem limites, muitos profissionais decidiram fazer pesquisas históricas para resgatar essas receitas antigas. O caso mais emblemático é o da Dog Fish Head que trabalhou com arqueólogos para reproduzir um fermentado grego da Antiguidade. Foi vendido sob o nome de Midas' Touch e também levava um conjunto de ervas ao invés de lúpulo 🍃

No Brasil, confesso que nunca tomei outra cerveja do tipo. E posso afirmar que dificilmente haverá uma concorrente à altura, pois a Kaimishkas é espetacular. Uma Gruit Lager cuja base contém cevada, centeio e aveia. O gruit leva ervas regionais do Brasil. Se não me engano, o primeiro lote ainda foi feito com fermentação mista 🍺

O resultado foi uma breja absolutamente complexa. No aroma, aquele toque de fazenda carregado de ervas (não consegui identificar quais eram). No paladar, um dulçor caramelado inicial que logo abre espaço para picância e um certo amargor. Final extremamente seco. Um primor de cerveja 🍻

Lei de Pureza Alemã




Hoje é o dia da Lei de Pureza Alemã. Em 23 de abril de 1516, o imperador alemão publicou o decreto que inaugurou a moderna fabricação de cerveja. Segundo ele, só seriam consideradas como cerveja aquelas bebidas fermentadas que contivessem água, malte e lúpulo 📜

O mercado evoluiu muito de lá para cá e hoje as cervejas apresentam nuances impensados para a época. A escola alemã também ficou caracterizada por essa rigidez, diferentemente de outras escolas. Mas é inegável que o decreto estipulou as bases para se alcançar um padrão de consumo e fabricação 🍺

Na foto, a Weihenstephaner Vitus, a weizenbock mais famosa do mundo. A Weihenstephaner é uma cervejaria bávara que produz cerveja desde pelo menos o Século X. Ou seja, há mil anos. Não sabemos se é pura jogada de marketing, mas a produção de cerveja na Alemanha realmente data de tempos imemoriais. A breja é clássica: potente, com muitos aromas esterificados, extremamente saborosa. Nada melhor para celebrar o dia! 🍻

terça-feira, 7 de abril de 2020

Festival Brasileiro da Cerveja 2020




Visitei, este ano, pela primeira vez, o famoso Festival Brasileiro da Cerveja, em Blumenau. Um baita evento cervejeiro, talvez o maior concurso de cervejas da América Latina. Contou com mais de 600 cervejarias participantes que forneceram cerca de 1200 rótulos.

Na parte aberta ao público, foram mais de 100 stands de diversas cervejarias, a maioria do sul do Brasil. Na feira, várias oportunidades de negócios para quem quer empreender na área (ou já empreende). Palestras também ocorrem e são importante fonte de informação.

Quanto à cidade de Blumenau, esta respira cerveja. São muitas opções de bares. O imponente Bier Villa, que fica anexo ao festival, oferece mais de 50 torneiras de chope. Visitei, também, o Pub Balbúrdia, o qual ganhou medalha como melhor brewpub. Aonde quer que se vá, só se encontra cerveja da boa! Um belo passeio para os apreciadores do líquido sagrado!

Orval

A Orval, uma das cervejas mais peculiares do mundo



Em tempos de isolamento social, inspiremo-nos no exemplo dos monges trapistas, famosos no meio cervejeiro pelas excelentes cervejas, como a Orval. 🍺

A Ordem Trapista (ou Cisterciense) é uma congregação católica beneditina que segue o preceito ora et labora: obediência, silêncio, pobreza e humildade. A vida dos monges é austera, de modo que quem ingressa na ordem deve se submeter a um rigoroso regime de trabalho, estudo e oração. O isolamento das comunidades trapistas também é notório. Em busca da unidade com Deus por meio da contemplação, todos os seus mosteiros situam-se no ambiente rural. ⛪

Não por acaso, os monges são famosos pela produção artesanal, principalmente de alimentos. Para prover sua subsistência, muitos deles produzem queijos, pães, doces e, é claro, cerveja. A tradição remonta à Idade Média, e os monges belgas foram os mais bem sucedidos na tarefa. As cervejas trapistas, por sua vez, constituem um seleto grupo que é produzido exclusivamente por mosteiros da ordem. Estão entre as melhores do mundo, dentre elas a Orval. 🍺

Um primor de cerveja, a Orval é fabricada pela Abbaye Notre-Dame d'Orval na região de Gaume, Bélgica. O monastério fabrica cerveja desde o século XVII, mas a receita atual data de 1932. Envolve um processo de produção intricado, com duas fermentações por levedura ale e brettanomyces. A cerveja é condicionada em garrafa, de modo que continua evoluindo com o tempo. Se não bastasse, sofre dry-hopping com flores de lúpulo. O resultado é uma bebida muito complexa e harmônica. Suaves notas rústicas de brettanomyces (que aumentam com o tempo), um dulçor maltado que lembra mel, a refrescância cítrica do lúpulo... Tudo muito bem assimilado, sem que um sabor se sobreponha ao outro. A cerveja ainda tem um final bastante seco e volumoso colarinho. De fato, a inspiração divina se fez presente e é prova que o mais profundo isolamento também pode ser reconfortante e profícuo. 🌄

Em outros posts, falaremos mais sobre cervejas trapistas! Aguarde.