No último final de semana, fizemos uma degustação horizontal de lambic/geuze: uma belga e duas nacionais. Fomos capazes de avaliar as diferenças entre o exemplar tradicional e os da nova escola e ainda harmonizamos as brejas com conserva de queijo de cabra! Um excelente exercício sensorial!
Lambics são cervejas tradicionais da Bélgica, cuja origem remonta à região do vale do Sena. Constituem um estilo milenar, muito próximo ao das primeiras cervejas já produzidas pela humanidade, uma vez que são fabricadas por meio de fermentação espontânea: a microbiota do ambiente da cervejaria contamina naturalmente o mosto cervejeiro! No entanto, tal fermentação é lenta e as lambics tradicionais demoram anos para serem maturadas. Geralmente, para refinar seu sabor, os cervejeiros belgas ainda fazem blends de lambics novas e envelhecidas, o que se chama geuze. O resultado é uma bebida marcante: muito complexa, seca, ácida, repleta de aromas rústicos. Por vezes, até se adicionam frutas, como framboesa e cereja, para tornar a bebida mais palatável ao grande público.
Desde já, um adendo: tradicionalmente, as lambics só podem designar as cervejas fabricadas na região de Bruxelas e do vale do Sena. Somente lá é que encontramos a microbiota necessária para se fazer tal estilo espontaneamente. Os cervejeiros do novo mundo, apesar de assim designarem seus produtos, trazem as cepas dos microrganismos belgas para cá, controlando a fermentação na cervejaria. As brejas resultantes seriam, portanto, melhor designadas como brett beer ou american wild ales.
Na nossa degustação de lambics, fizemos uma harmonização com conserva picante de queijo de cabra que leva limão, azeite, pimentas variadas e alecrim. Um espetáculo! Os sabores rústicos das lambics harmonizaram por semelhança com o queijo (elas também têm um certo caprílico!). A acidez refinada das brejas encontra respaldo no limão, mas também contrasta com a untuosidade da conserva e com a picância das pimentas. Ademais, o caráter condimentado da conserva é muito bem recebido pela cerveja, com sabores que se complementam. Enfim, uma harmonização completa!
Quanto às cervejas em si, algumas observações:
1 - a Celeiro do Vale, da Wals, é uma bela reprodução das geuze originais. Em termos de aroma, achamos bem complexa: muita rusticidade aliada a um cítrico intrigante. Bem leve e com acidez refinada;
2 - a Nêspera Lambic, da Imigração, é mais robusta, pois possui maior ABV e também mais corpo. A fruta traz uma bela adição de sabor e equilibra a acidez característica do estilo;
3 - a Mariage Parfait, da Boon, é de fato a geuze por excelência. Os exemplares nacionais fizeram um belo trabalho, mas não se comparam a uma belga original. Esta traz muita complexidade: além dos sabores rústicos, bem puxados para celeiro e couro de cela, também traz um aspecto frutado que lembra vinho branco. Em termos de corpo, álcool e acidez, foi a mais equilibrada de todas. Também é de se notar que ela é um blend de lambics de três anos com novas de apenas um ano, o que confere equilíbrio de sabores e texturas.
Enfim, um baita exercício sensorial! Santé!




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