Conforme prometido, compartilharemos aqui algumas experiências do mundo cervejeiro, começando por uma harmonização caseira entre massa e cerveja belga.
No caso, selecionamos o estilo Tripel, original da escola belga, cujo berço remonta aos mosteiros medievais. De modo geral, as cervejas desse estilo possuem cor dourada e notas frutadas oriundas da fermentação que lembram pera, banana e damasco; além de outros sabores cítricos e herbáceos derivados principalmente das variedades de lúpulo utilizadas. De teor alcoólico elevado (chegam a 10% de ABV), têm certo dulçor, mas os lúpulos trazem equilíbrio; o final é seco e marcante, sem ser enjoativo. Percebe-se, desde já, que é uma bebida complexa e deve ser apreciada com apuro.
Decidimos fazer uma degustação horizontal, ou seja, selecionamos duas cervejas de mesmo estilo, porém de marcas diferentes: St. Bernardus e Wäls. A primeira, vinda diretamente da Bélgica, era originalmente produzida por mosteiros trapistas; no momento, é de fabricação secular, embora ainda mantenha as receitas consagradas. A última, elaborada nas nossas Minas Gerais.
Para a mesa, trouxemos uma massa com tempero de manjericão, queijo minas, amêndoas e azeite. Queríamos, mesmo, fazer massa ao pesto, mas nossos planos foram sabotados pela dificuldade em se obter a apresentação adequada 😂
De todo modo, o prato ficou bem saboroso.
A pergunta que se faz: por que essa harmonização?
Primeiramente, deve-se pensar no equilíbrio de forças. Uma cerveja como a Tripel demanda um prato igualmente forte. A partir daí, é necessário estabelecer uma harmonia entre os sabores envolvidos. Optamos pela semelhança: o caráter condimentado e vivo da cerveja encontra respaldo na massa temperada. O manjericão é, de certa forma, bem semelhante ao perfil herbáceo trazido pela Tripel, e o frutado combina bastante com as amêndoas. Ademais, a carbonatação elevada e o teor alcoólico superior limpam a boca após cada garfada; a gordura e o peso da massa são mitigados pela cerveja cortante.
Uma dança intensa, porém harmônica.
Uma dança intensa, porém harmônica.
Quanto às marcas em si, mostraram-se bem singulares. Tangenciam-se na aparência dourada-alaranjada e no colarinho vistoso. Notamos, no entanto, diferenças evidentes entre elas. Acompanhem.
A St. Bernardus apresentou melhor harmonia. É bem carregada de aromas frutados e fenólicos (jargão cervejeiro para o perfil condimentado que apresentam algumas cervejas - no caso, notamos noz-moscada e coentro). No palato, apresenta-se doce, potente, embora o final seja seco e não se perceba álcool. Apesar de complexa, é muito equilibrada no conjunto e envolveu a massa maravilhosamente.
A Wäls Tripel, por sua vez, apresentou um perfil mais cítrico, haja vista a utilização de casca de laranja em sua receita (algo comum na Bélgica). Suspeitamos, também, da presença de lúpulos americanos. Contudo, não casou bem com o caráter condimentado (tanto da cerveja quanto da comida). Embora a citricidade seja característica do estilo, neste caso, achamos excessiva. De toda forma, é uma cerveja interessante e tem bom custo-benefício. Revela a dinâmica do mercado cervejeiro no Brasil atualmente.
Enfim, uma ótima harmonização entre comida e cerveja que pode ser reproduzida em casa e mostra-se superior a qualquer uma envolvendo vinho.
Só precisamos acertar o molho 😜


Nenhum comentário:
Postar um comentário